A fome que destrói

 

A criança estava suja e mal vestida. Seu estômago roncava ferozmente: tinha fome. Ela andava pelas ruas procurando algo – qualquer coisa – que pudesse comer, quando avistou uma mercearia. Iria suplicar por um alimento, não importava qual fosse, desde que enganasse seu estômago. Poderia ser uma bala qualquer, não teria problema…

Entretanto, o dono não caiu na conversa do garoto e o expulsou do estabelecimento. Sem forças para andar, ele sentou na calçada da rua e passou a encarar seu destino como se fosse uma ampulheta cuja areia já chegava ao fim. O tempo nunca esteve a seu favor. Na verdade, nada jamais esteve.

O garoto sente uma mão apertando seu ombro; ao se virar, ele se depara com um homem de aproximadamente 30 anos que traz consigo um certo brilho nos olhos. Ele sussurra:

– Ei, moleque, tá com fome?

O garoto, de tão fraco que estava, só conseguiu balançar a cabeça. Pra cima e pra baixo.

– Pois eu vou te dar o que cumê, fechô?

Novamente, pra cima e pra baixo. Mas dessa vez com um sorriso que revelava alívio. E felicidade. O garoto já estava arranjando forças para poder abraçar aquele salvador quando ouviu:

– Mas com uma condição: cê tem que entregar um pacote pra um sujeito meu, e num pode abrir de jeito nenhum, entendeu?

Pra cima e pra baixo.

– Ótimo. Depois que entregar, me encontra no barraco da Argentina e num traz nenhum aconchegado, tá ouvindo?

Pra cima e pra baixo.

E assim o garoto seguiu, pra cima e pra baixo, levando pacotes para aquele homem que havia “salvado” sua vida. Entretanto, só percebeu que sua vida não lhe pertencia mais quando o caminho da bala o encontrou – e infelizmente não era aquela da mercearia.

Por Miguel Araujo

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