Crescer alguém na vida

Uma frase, quatro palavras, quinze letras e uma responsabilidade enorme nas suas costas: “Ser alguém na vida”. Você já escutou esse enunciado antes, não é? Não precisa mentir, seu segredo estará guardado comigo. Relaxe, você não é o único. Todos nós já escutamos isso em algum momento de nossas vidas. Repetidas vezes, até. Desde que éramos crianças.

Começou com nossos pais, quando nos perguntaram o que queríamos ser quando crescêssemos. Hotwheels ou boneca Polly na mão, respondemos, ainda sem termos noção do que essa pergunta representava, que “um astronauta pra poder descobrir o universo” ou “veterinária pra poder cuidar dos cachorrinhos abandonados nas ruas”. Eles, então, sorriam, já botando na cabeça a ideia de que teríamos um grande futuro pela frente. Para muitos pais, não como um astronauta. Veterinária, quem sabe, até poderia ser, mas o foco era outras profissões. O tempo passava, íamos trocando nossos brinquedos e levando em nossas mentes, mesmo que sem muita atenção, a proposição de uma profissão pro resto de nossas vidas. Fomos completando aniversários, fazendo novos amigos, despertando nossos interesses por um relacionamento, e essa proposição agora assumia outra forma. Almoço em família, mesa cheia, todos se servindo e alguns conversando, até que as palavras começaram a ficar mais pesadas, e você só tem 13 anos:

“Filho(a), você tem que se esforçar pra ser alguém na vida. Estudar pra conseguir um emprego bom, que te dê dinheiro e que possa te ajudar a sustentar sua família. Ainda mais hoje em dia, na situação em que o país está, pra arranjar emprego de qualidade tem que batalhar por isso.”

Ouvir isso acaba se tornando uma rotina, e pra alguém que está entrando na adolescência, pode ser muito complicado. A pressão sobre seus ombros aumenta, as responsabilidades ganham enormes proporções e você só tem 14 anos. A adolescência é isso: fase de descobertas, mudanças, transformações, crises existenciais e a sensação de que só você se entende, porque para os outros tudo não passa de “frescura” ou “tentativa de chamar a atenção”. É, tudo isso acontece ao mesmo tempo, misturado e triturado em um liquidificador para ser servido àqueles que têm sede de respostas, mas que acabam digerindo mais perguntas.

Uma delas já vem te acompanhando há algum tempo, e você só tem 15 anos. Aliás, já pensou na profissão que você vai seguir? “Er, na verdade, não”, você responde. “Sério? Perguntei pro Benzeno e ele tinha me dito que queria Medicina”, ela fala. E então você revira os olhos e pensa que só Benzeno pra poder aguentar isso… Indagações, hormônios, o tempo tique e taca acelerado e tudo o que você mais quer é algo para colocar entre os ponteiros do Big Ben para impedir que as horas passem e impedir que o futuro bata à sua porta pedindo uma xícara de café e um pouco de seu tempo, por favor. As paredes parecem estar se fechando cada vez mais, as pessoas precisam que você tenha atitudes de adulto mas ainda te tratam como criança, e isso cria um complexo na sua cabeça que nessa idade é difícil tirar. Seu boletim aparentemente foi preenchido com uma caneta vermelha e agora você precisa dar explicações de por quê isso aconteceu. Seu olhar denuncia sua aflição, seus dedos tremulam como o chão em um terremoto de grande escala e seu cérebro precisa raciocinar…

E então ele tenta ser otimista; “vai passar, é apenas uma fase”, só que agora você só tem 16 anos. Um pouco mais maduro(a), tendo um olhar mais crítico, humor ácido, o estresse acumulado te mudando aos poucos e a inocência daquela criança com o Hotwheels ou a Polly na mão se esvaindo. Aquela sensação de ser incompreendido continua, mas você internaliza mais eficientemente isso, muitas vezes. A máscara que você veste para esconder seus problemas e tentar “sobreviver” aos dias difíceis tem um lugar guardado no armário de seu quarto e, às vezes, tudo o que você mais deseja é que alguém tire essa máscara de seu rosto e te dê um abraço apertado, dizendo que as coisas vão passar, porque, afinal, é apenas uma fase, não é? Uma de suas aventuras diárias é tentar descobrir qual sua verdadeira identidade, porque tudo está muito confuso, e não sabemos o que somos ainda e, o mais angustiante, não sabemos o que seremos na vida. “Mas como assim você tem 16 anos e não sabe o que vai ser?” Pois é…

As paredes estão se fechando cada vez mais e você só tem 17 anos. Daqui a um ano você vai ser legalmente adulto, mas será que daqui a um ano você vai se sentir um adulto? Já maduro, decidido, pronto pra entrar numa faculdade e sair de lá empregado em uma grande empresa e ajudar a sustentar sua família por toda a vida, como queriam de você? Talvez não, quem sabe, daqui a um ano teremos uma noção, não é? Só que você só tem 17 anos e, para completar, tem um vestibular pela frente. Mas não é um vestibular qualquer: é O vestibular, o mais importante de todos, aquele que vai decidir o seu futuro, você tem que passar no vestibular pra começar, finalmente, a ser alguém na vida!…

É nisso que eles fazem você acreditar, não é? Como se não tivessem mais opções… como se, se você não alcançar seu objetivo nesse ano, não conseguirá nunca mais, porque o futuro já bateu à sua porta e já levou seu tempo embora. Não dá mais pra realizar o sonho de seus pais, de todo mundo que, alguma vez, botou um pouco de peso nos seus ombros: não dá mais pra “ser alguém na vida”.

Mal sabem eles como estão errados.

“Ser alguém na vida” não significa ser o melhor médico, advogado ou engenheiro da sua cidade. Não significa passar em primeiro lugar em Medicina no vestibular e estampar outdoors, manchetes de jornais ou revistas. Não significa se matar de estudar, esquecendo dos amigos, do lazer e da família somente pensando em uma vaga na Universidade. Significa viver a vida.

Sim, viver a vida. Com suas dificuldades, alegrias, tristezas e alívios. Significa fazer o bem às pessoas, ser uma pessoa íntegra, honesta, preocupada com os que estão ao seu redor e preocupada consigo, importante ressaltar.

Não se torture com essa uma frase, quatro palavras e quinze letras; você ainda tem muito a viver, a vida não acaba caso tenha uma desaprovação no vestibular. Saia mais com seus amigos, sinta a natureza, aprecie as pequenas coisas que te trazem felicidade, relaxe sua cabeça e sua alma porque, mesmo com tantas dificuldades, você ainda está de pé, e não é por conta de muletas.

Não vão ser as Leis de Newton, as Leis de Kepler ou a fórmula de Bháskara que vão te fazer ser alguém na vida, saiba disso. E quando alguém te disser que você precisa “ser alguém na vida”, responda:

– Mas eu já sou. E tenho um grande futuro pela frente.

Texto escrito por Miguel Araujo

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