Esqueceram de Nós

Esqueceram de Nós

Lucas estava em uma tarde simplesmente espetacular. Ninguém do time adversário conseguia tirar a bola dos seus pés, pois o garoto tinha uma habilidade impressionante e passava pelos seus marcadores com facilidade. Os dribles eram constantes, assim como o sorriso estampado no rosto do menino. Não demorou muito para que conseguisse marcar seu 5º gol naquele jogo, levando a torcida (da arquibancada de sua imaginação) à loucura. Em sua mente, a plateia gritava seu nome ininterruptamente, o que o motivava ainda mais. Daqui a alguns anos, pensava ele, todos conheceriam Lucas Custódio dos Santos, futuro artilheiro da seleção brasileira de futebol. Teria uma carreira de sucesso, fama, prestígio e, consequentemente, a chance de garantir uma moradia digna e segura para sua mãe e para seus irmãos. Tudo já estava planejado em sua cabeça, e tinha a certeza de que, de alguma forma, sua vida melhoraria. Era só questão de tempo.

As pessoas que transitavam ao redor daquela quadra improvisada observavam os esforços feitos por aqueles garotos, que disputavam o jogo como se fosse o último de suas vidas ou como se valesse a saída permanente daquele lugar hostil, marcado por assassinatos, por roubos e pela desesperança. Em seus subconscientes, estavam em busca da segunda opção. Após mais 10 minutos de dribles e de gols antológicos, a partida foi encerrada. Assim, os jogadores seguiram seus caminhos; alguns foram andar de bicicleta, outros passearam pelas vias da favela… um, entretanto, a partir daquela tarde, nunca mais teria um caminho.

Ao andar pela Favela do Sucupira, Lucas foi surpreendido por dois Policiais Militares, que atiraram em sua perna. Depois do disparo, o garoto de 16 anos tentou fugir, mas foi dominado pelos fardados, que o algemaram e o levaram a um matagal, onde foi assassinado com dois tiros; segundo testemunhas, o rapaz estava desarmado e, ajoelhado, implorou por sua vida: “Não precisa me matar, senhor”. Essas foram as últimas palavras de Lucas, acusado pelos PM’s de ter roubado um carro. Ele, entretanto, não sabia dirigir.

Infelizmente, casos como o de Lucas não são isolados. Aos montes, escutamos histórias tristes e revoltantes sobre agentes de segurança que causam insegurança. Causam medo. Pânico. Ao ponto de serem, muitas vezes, tão temidos quanto os traficantes que dominam as diversas “Favelas do Sucupira” espalhadas pelo Brasil. Uma polícia que mata inocentes, pais de família e adolescentes simplesmente por suspeitas; ou pior: por suas cores. Pessoas que financiam o tráfico de drogas espalhadas pelas áreas nobres das cidades, onde não há o ímpeto da busca por resultados como ocorre nos morros, porque para os “cidadãos de bem”, “bandido bom é bandido morto”, mas só se ele for pobre, preto e à margem da sociedade(marginais, como dizem). Indivíduos que ocupam os mais altos cargos e que têm a função de buscar soluções que amenizem de verdade as mazelas trazidas desde a colonização que trabalham em benefício próprio e pioram a situação. O sistema é terrível.

Rocinha. Maré. Complexo do Alemão. Favelas que se encontram no Rio de Janeiro, o epicentro das manchetes dos jornais nos últimos dias. Lá, como em várias regiões do Brasil, os índices de criminalidade são assustadores; assassinatos todos os dias, estupros, roubos, latrocínios, fraudes… um cenário insustentável. Horroroso. Gravíssimo. Mas ainda bem que o prefeito da cidade passou seu Carnaval na Europa(segundo ele, a trabalho, mas a viagem não teve caráter oficial) pra trazer soluções para a segurança. Sua ida, entretanto, deve ter sido realmente frustrante, porque enquanto ele estava lá, finalmente o Senado encontrava uma solução para todos esses problemas: a intervenção do exército. E quem sofrerá com isso será também a população da periferia, não apenas os traficantes das favelas. Quem estiver no olho do furacão, provavelmente será afetado. Seja inocente, pai de família ou adolescente, o vento não escolherá quem carregar.

Lucas Custódio dos Santos foi mais uma vítima que entrou para as estatísticas dos assassinatos no Brasil. O garoto de 16 anos teve sua trajetória e seus sonhos interrompidos de forma revoltante, deixando nas pessoas que o amavam os sentimentos de desamparo e de desesperança. Enquanto escrevia esse texto, mais Lucas foram assassinados no país, talvez por policiais militares. Enquanto escrevia esse texto, mais sonhos foram despedaçados numa realidade cruel e assombrosa. As respostas para tantas perguntas talvez não sejam encontradas. Com tanta violência chegando às residências, será com mais violência que solucionaremos essa agrura?

Ao pensar na resposta a essa pergunta, lembrei de minha escola, lugar em que aprendi sobre cidadania e sobre respeito.
Também lembrei de outra coisa que aprendi lá:
O acesso a uma educação de qualidade é para poucos nesse país. Por esse e por outros motivos temos tantas desigualdades sociais.
Por esse motivo que, ao invés de tentar responder a essa pergunta, faço outro questionamento:

Por que, em vez da violência, não vemos a educação chegar às residências?

Por Miguel Araujo

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