Pelos muros da cidade

Pelos muros da cidade

 

Os muros pintados pela cidade mostravam cores que iam além da mera percepção ocular. As paredes que serviam de abrigo para aquelas mensagens anunciavam pinturas que pincelavam uma realidade invisível aos olhos de quem era cego por dentro. Manifestações gráficas de liberdade e de sentimentos que antes pertenciam apenas aos autores dessas mensagens, mas que agora são públicos. Todos veem, mas nem todos entendem. Todos observam, mas nem todos enxergam. Assim, os julgamentos são feitos. Alguns defendem, alegando ser uma expressão da arte; outros criticam, insinuando que é vandalismo e que não há utilidade alguma nisso. “É coisa de gente que não tem o que fazer”, dizem. As luzes dos postes iluminavam os desenhos marcados nos muros, revelando formas e técnicas peculiares e interessantes. Entretanto, não revelavam as histórias que estavam por trás de todas elas.

 

Um garoto de 17 anos transitava pelas ruas de Diadema, no estado de São Paulo. Com as mãos nos bolsos da calça, chutava as pedras que iam aparecendo pelo seu caminho e soltava longos suspiros, entediado depois de sair de uma aula não tão agradável em seu colégio. O céu estava nublado e o dia monótono, aparentemente sem fatos que pudessem prender a sua atenção. Um dia monótono e cinza. Até que olhou de relance para o muro de um ginásio e viu uma mensagem enunciada pelo desenho de uma garota e escrita em letras garrafais: “A droga é uma roubada fácil de entrar mas difícil de sair”. Enfim, um fato que prendeu a sua atenção. Depois da surpresa, o garoto passou a observar os detalhes que estavam tão escondidos e ao mesmo tempo tão escancarados. A forma do desenho, o contorno do balão em que se encontrava a mensagem, a fivela que estava presa no cabelo da garota… Tudo isso passou a ser visto pelo menino, e o dia que estava cinza de repente tornou-se colorido. As cores pinceladas no céu de sua imaginação refletiam os tons dos sentimentos que ele passou a ter naquele momento: alegria, satisfação e, acima de tudo, confusão. Sim, confusão. Ele estava confuso sobre o propósito daquela mensagem, e passou a refletir sobre ela: será que o grafite seria capaz de fazer uma pessoa deixar o submundo das drogas?

 

A milhares de quilômetros de Diadema, em Fortaleza, um rapaz se fazia a mesma pergunta. Ou melhor, vários rapazes. Pareciam não entender de que modo o grafite seria útil em suas vidas, já que se encontravam em um mundo à parte. Um mundo perverso, capaz de destruir famílias inteiras e de selar destinos precocemente. A sina de quem seguia um caminho aparentemente sem volta como esse. E dizem que as aparências enganam… O rapaz que refletia sobre a utilidade do grafite era usuário de crack. Amargurado na vida da dependência química, acreditava que sua existência se traduzia nas drogas: um romance cruel e escravizante extremamente difícil de deixar para trás. Um cenário em que a luz no fim do túnel nunca parecia chegar… mas que chegou. Através do Hip Hop, ele pôde conhecer o grafite, e assim descobriu uma nova forma de ocupar sua rotina. Das drogas para as obras… as de arte. Depois de um tempo, conseguiu abandonar totalmente a dependência química; o vazio que ele sentia fora preenchido pela alegria de grafitar, e as ruas que estavam cinzas passaram a ser marcadas pela sua assinatura. A assinatura de alguém que havia superado seus pesadelos e acordado para sentir novas cores. Logo, como poderiam dizer que seu trabalho era “coisa de gente desocupada” se ele estava se ocupando em transmitir sua mensagem mais preciosa: a superação? Compreendeu, então, que não precisava da aprovação dos outros quando tinha a sua própria. Quando sabia que sua história já era uma arte.

 

Talvez o garoto de Diadema nunca saiba da história do rapaz de Fortaleza. Talvez ele não consiga responder a dúvida que teve ao ver o grafite no muro do ginásio. Mas, a partir daquele dia, ele conseguiu enxergar as cores que iam além da mera percepção ocular. Percebeu que a realidade ultrapassava os muros pintados das cidades: era preciso, então, descobrir o que estava do outro lado.

 

Por Miguel Araujo

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