Da cor do pecado

Estávamos lado a lado quando o despertador tocou. Jovens e sadios. Cheios de esperanças, expectativas e desejos para uma vida que só começava. Naquele momento, tínhamos um ao outro, e isso me confortava. 7h30 da manhã, ainda lembro do horário em que nossos olhos se encontraram e que pude ver seus dentes perfeitos se abrirem num sorriso caloroso e amigável, como se ela dissesse sem dizer, e falasse sem mexer seus lábios finos para formar palavras. Um sorriso pode ser o bastante para mudar seu dia – ou pelo menos parte dele. Fitávamo-nos incansavelmente quando ela se aproximou de mim e pude sentir seus sussurros andarem por minha pele, anestesiando-a. Vislumbro suas feições, suas características, e para cada uma delas acho um adjetivo, mas para sua beleza é tão insuficiente quanto tentar pular cordas sem uma por perto. Mulher morena, de lábios finos e cabelo liso, seus olhos cor de avelã profundos e penetrantes me hipnotizavam tanto que quando percebia que eu a estava analisando suas bochechas coravam. Estava tudo tão bom que até estranhei aquela atmosfera acontecer numa segunda-feira, dia tão amaldiçoado pela sociedade (e por mim, também).

– Preciso ir, ela revelou.
– Mas já?
– Sim, meu trabalho começa às nove horas, completou abrindo outro sorriso.
– Quando vou te ver de novo?
– Deixaremos essa incógnita no ar. Eu te ligo depois, agora estava vestindo sua calça jeans azul marinho.
– Suponho que seja a última vez, então.
– Não fale assim! Não podemos prever o futuro. E isso é legal, até. Aposto que vai se esquecer de mim logo, logo.
– Não podemos prever o futuro, falei com um sorriso desencorajado.
Vestiu sua blusa listrada e calçou seu sapatênis branco com detalhes vermelhos. Pegou sua bolsa cáqui da MK e a pôs no ombro. Despediu-se com um beijo no ar. Ao pôr a mão na maçaneta da porta do apartamento:
– Ei.
Observo atentamente. Que diria, afinal?
– Grandes coisas virão pela frente, e saiu.

Não entendi o que ela quis dizer com essa frase, mas achei que estivesse me desejando o melhor, então agradeci mentalmente, até porque não sabia se a veria novamente. Luxúria entrou pela porta da frente e saiu pela porta dos fundos. É estranho, porque tão rápido quanto nosso encontro foi nossa despedida, a princípio.

Às vezes, os pequenos momentos são enormes diante da efemeridade de nossas vidas mundanas. Mais momentos como esse, mas não necessariamente dessa natureza, serão escassos, se não tracejarmos uma meta de felicidade em nossas vidas. Como o professor Keating, em Sociedade dos Poetas Mortos: “Carpe diem. Aproveitem o dia, meninos. Façam de suas vidas uma coisa extraordinária. ”

Carpe diem, carpe diem, carpe diem. Um relacionamento com um pecado capital pode trazer consequências horríveis. Por exemplo, pode fazer você pensar com lucidez, e, para ser sincero, não desejo isso nem ao meu pior inimigo.

Por Miguel Araujo

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