No calar da noite

No calar da noite

O suor escorria incontrolavelmente pelo seu rosto. Seus batimentos cardíacos estavam acelerados. Sua respiração, ofegante. O cansaço era evidente. O motivo? Ah, é simples(e complexo ao mesmo tempo): A maratona em que ele se encontrava era terrivelmente exaustiva. Mas talvez não seja a que você esteja pensando, porque a corrida em que ele estava não era a da São Silvestre. Era a da redação do jornal.

Suas mãos tremulavam diante do papel que ainda não havia sido preenchido. O tempo estava passando, o chefe pressionando, e a matéria enrolando para sair. O prazo era apertado: só tinha 6 horas para poder completar todo o processo de apuração, coleta de dados e finalização do assunto. Dava pra entender o motivo de tanta pressa, já que aquela matéria seria a manchete do jornal do dia seguinte. E é nesse momento que é preciso destacar essa palavra. Manchete? Não, não, o verbo conjugado no futuro do pretérito mesmo: seria.

O problema é que, no calar da noite, a pauta foi alterada, não por causa do repórter que não tinha conseguido até aquele momento escrever sua matéria, mas sim porque surgiram pessoas interessadas em mudar os planos. E não eram apenas os daquela matéria: eram os de todo o jornal. A partir daquele momento, os fatos não seriam mais como eram antes, até porque muitas vezes nem existiriam fatos que pudessem ser noticiados. Era preciso, então, modificar ou até retirar as informações que comporiam o jornal. O regime não poderia ser atingido.

Os dias que se seguiram à mudança repentina na condução do jornal foram tensos, mais ainda que os anteriores, porque cada tecla digitada poderia significar a redução do tempo que os jornalistas teriam como empregados. A censura era evidente: nada passava sem que houvesse o uso da lupa pelos julgadores. Aos poucos, as notícias acusadoras foram desaparecendo, e em vez de cidadãos críticos, formaram-se chefs de cozinha, já que as novidades que estampavam a capa do jornal eram receitas de bolo e de outras refeições(difíceis de se engolir, por sinal).

O sentimento que era exalado no ar da Redação era o de impotência, e o cenário, de desesperança. Rostos atônitos, tristes e que expressavam uma revolta imperceptível aos olhos desatentos, mas escancarada aos que se importavam. O repórter que havia sido responsabilizado pela manchete no dia em que os pensamentos foram roubados não sabia mais o que fazer. Pensou várias vezes em pedir demissão, mas tinha medo de sofrer com as consequências desse “ato rebelde”. Nos seus momentos de silêncio(que não eram raros, aliás), refletia sobre a importância da sua profissão para a sociedade. Como as pessoas poderiam reivindicar melhorias se os problemas não chegavam a elas? Como a sociedade seria mais justa se as injustiças eram veladas a todo instante? Ele sentia falta daquilo que era como um segundo sangue para ele, extremamente importante no desempenho de suas funções. Os tempos sombrios haviam chegado… mas o que ele poderia fazer?

A informação não deve ser reprimida. Nem o pensamento crítico. E muito menos a liberdade. O repórter lembrou de um antigo ditado: “Mais vale um pássaro na mão que dois voando”. Ele, então, pensou amargurado: na verdade, mais valem os três pássaros voando, porque eles foram feitos para serem livres, assim como as pessoas. E, naquele momento, tudo o que ele queria era ter sua liberdade de volta. O sofrimento passou a dominar sua alma, ia desistir de tudo e…

Foi quando seu chefe o cutucou com força. O repórter havia cochilado enquanto tentava terminar sua matéria e acabou sonhando com um cenário de opressão, em que não tinha voz nem vez. Suspirou aliviado porque nada havia acontecido, e suas mãos voltaram a tremular diante do papel que ainda não havia sido preenchido.

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