O amor é cego(ou cega?)

Meu coração bateu acelerado na primeira vez em que olhei diretamente nos seus olhos. Ele soltou um sorriso meio tímido, como se não quisesse deixar transparecer que também estava, ainda que fosse pouco, nervoso. Analisei mentalmente todas as suas feições, sua postura e a aura que conseguia sentir sendo exalada por aquela pessoa. Senti, instantaneamente, que estava num estado diferente, que havia dominado todas as minhas ações e meus pensamentos. Senti que estava apaixonada.

A partir desse momento, comecei a imaginar cenários em que estivéssemos juntos; primeiro, namorando, depois, se casando até, enfim, envelhecermos juntos e estarmos sentados numa varanda observando o pôr do sol e olhando em retrospectiva todo o nosso passado. Seríamos o casal inseparável, imbatível e inabalável. Mas agora que eu escrevo esse texto, só desejaria nunca ter olhado diretamente nos olhos dele.

Depois daquele “primeiro encontro”, os dias foram passando e só conseguia vê-lo de longe, pois não tinha coragem de me aproximar. Achava que ele não teria interesse em mim, então não adiantaria a tentativa; como era nova no colégio, não tinha ninguém que pudesse ser o “intermediário” entre eu e ele, restando apenas observá-lo diariamente.

Um dia, surpreendentemente, ele veio falar comigo. Estava sentada num banco próximo a cantina, comendo um salgado de lá e ouvindo música, quieta e imperceptível aos olhares mais distraídos que passavam por ali. Aparentemente, ele já vinha me observando há algum tempo, quando resolveu vir até a mim. Tomei um susto e quase cuspo o pedaço do salgado que estava mastigando sem querer. Fingi que nada havia acontecido e ele, então, falou:
– Oi, você é novata, não é? Não tinha te visto por aqui em outros anos, por isso me surpreendi em te ver.
– Ah, oi, sou sim — falei rapidamente, tentando raciocinar sem parecer que não estava, realmente, raciocinando — Vim de outro colégio, ainda tô tentando me adaptar.
– Ambiente hostil?
– Não exatamente, pelo menos não ainda — ri um pouco, numa tentativa de deixar o ambiente mais leve
– Posso te ajudar a se adaptar, se quiser. Ser um guia turístico pra ti, quem sabe. Sou o X, a propósito.

Não pus o nome verdadeiro dele aqui porque, infelizmente, casos como o meu(ou o nosso) não são isolados; então, decidi não “individualizar” ele, porque sei que existem milhares de “Xis” espalhados por aí.

– Acho que vou aceitar sua sugestão, X. Sou a Y, aliás.

Assim como vários Xis, existem várias Ípsilons, mas nem todas conseguem relatar o que estou relatando, seja porque tenham medo, sentimento de vergonha ou por não acreditarem que serão acreditadas, sendo, em muitos casos, consideradas culpadas, quando são justamente as vítimas. Esse é o reflexo da sociedade machista e patriarcalista em que vivemos há muito tempo.

Começamos a conversar mais e a nos aproximar. Basicamente, só tinha a ele para interagir, porque ainda não tinha me enturmado, mas naquela época não era um incômodo pra mim, já que estava perto da pessoa com quem sonhava passar a vida. Me sentia bem quando estava perto dele, sentia que estava protegida e acolhida, e parecia que me sentiria assim pelo resto da vida. Mas o que eu aprendi com tudo isso foi justamente não pensar isso sem conhecer alguém realmente. Não o conhecia naquela época; apenas via o que a vitrine mostrava. A essência não se mostra.

Depois de ganharmos um pouco mais de intimidade, começaram os abraços, os carinhos e as demonstrações de afetividade um pouco mais, digamos, intensa, como beijos na bochechas e carícias de seus dedos em meu cabelo. Estava perdidamente apaixonada, e já tinha aceitado essa condição; só esperava(ansiosamente) o dia em que ficaríamos juntos pela primeira vez.

E esse dia veio um mês depois de termos o primeiro contato. Ele tinha me chamado pra ir a um parque famoso de minha cidade, ainda lembro do dia: era um sábado, três horas da tarde, o céu limpo, sem nuvens, o vento soprando em meu rosto e várias pessoas caminhando ou fazendo piquenique lá. Andamos por um tempo e então sentamos num banquinho. Ele segurou minha mão e encaixou seus dedos nos meus; sua mão era macia e lisa, e pude sentir que estava suando um pouco. Foi quando ele aproximou seus lábios dos meus e me beijou pela primeira vez. Foram muitos sentimentos ao mesmo tempo: felicidade, euforia, satisfação e até mesmo alívio. Um dia mágico pra mim, naquela época.

Uma semana depois, veio o ápice da minha felicidade: o pedido de namoro. Um amigo nosso tinha convidado pra ir a sua casa, e foi lá que o X preparou tudo. Um caminho de velas no jardim do amigo, flores espalhadas pelos cantos até, enfim, chegar até ele com um letreiro atrás com a frase “quer namorar comigo?”. Naquele instante, as lágrimas desceram pelo meu rosto sem parar. Não conseguia conter minha felicidade, e logo disse “sim” a ele. Naquele instante, as lágrimas eram de felicidade. Mas as que viriam pela frente não seriam mais.

Parecíamos o casal perfeito, e eu tinha essa ideia na cabeça. Nas primeiras semanas de namoro, tudo estava maravilhosamente bem: éramos companheiros, atenciosos e amigos, sobretudo; mas amigos que namoravam. Olhava para ele e só conseguia pensar no quão loucamente apaixonada eu estava por aquele garoto, e dizia “eu te amo” todas as vezes que tinha a oportunidade. Não queria perdê-lo, e faria de tudo para manter nosso relacionamento. E esse foi um dos problemas.

Com um mês de namoro completado, fomos a uma casa na serra, da família dele. Ficamos a sós, pois os seus pais tinham saído, e então tivemos nossa primeira relação sexual. Foi uma sensação muito boa, porque essa experiência tinha acontecido com alguém que eu amava, que eu confiava e que tinha respeito por mim. Tudo parecia estar funcionando perfeitamente bem… mas, com esse episódio, abri portas que jamais deveriam ter sido abertas. E sofreria com isso.

Como eu disse, estava completamente apaixonada por ele, e isso acabou me cegando pra fatos que, se acontecessem hoje, não passariam batidos por mim. Sem perceber, acabei dando a “liberdade” a ele de fazer o que quisesse comigo, já que poderia fazer tudo por ele. X tinha o controle sobre mim. Estava presa, mas com algemas invisíveis.

4 meses de namoro, nossa primeira briga. Fiquei chocada. Sem chão. Me senti culpada. Me desmanchei em lágrimas, fiquei triste demais, me perguntava os motivos de a pessoa que dizia me amar mais que tudo me tratar daquele jeito. Como um lixo. Descartável.

– Deixa de ser chorona, tu tá me irritando! — ele disse, ou melhor, gritou a mim.

Mesmo assim, fui atrás dele, minha razão de viver. Não conseguiria imaginar um cenário em que não estivéssemos juntos, precisava dele perto de mim. Isso não aconteceu só uma vez, devo dizer. Na verdade, foram incontáveis as vezes em que me vi de joelhos, no chão, com as mãos na face tentando segurar o choro que saía de mim. Isso me deixava devastada, mas não conseguia me livrar dessa prisão.

Desde nossa primeira relação sexual, minha rotina mudou drasticamente. Aliás, a dele também. Os finais de semana passaram a ser preenchidos com transas e mais transas. Até os dias livres da semana eram comprometidos, tinha que tirar um tempo pra ficar com ele ou transar com ele. Com o tempo, essa prática ficou abusiva e cansativa pra mim. Estava ficando doente, triste, cansada… mas isso não importava pra ele. Frequentemente ele me obrigava a fazer coisas contra a minha vontade, apenas para saciar a dele, o retrato do lixo humano que estava na minha frente. E quando o confrontava:
– Como assim tu não quer transar comigo? Que pena, porque tu vai, querendo ou não!

Sim, eu continuei o relacionamento. Mesmo com tudo isso, não queria terminar, pois perderia a chance de tê-lo como marido. Entretanto, as coisas pioraram. As brigas foram ficando mais feias, as ofensas se tornaram frequentes, além de ameaças e desprezo que sofria constantemente. Minha autoestima estava muito, mas muito baixa. Os dias ficavam turvos, não conseguia dormir direito mais, tinha crises de pânico e ansiedade, além das lágrimas que jorravam de meus olhos quase todos os dias. E ainda:
– Como eu queria que tu morresse pra eu não ter que olhar mais pra ti!

Um dia, cedo ou tarde, o previsível iria acontecer. Ainda consigo lembrar do ardor que senti na face. Estávamos no shopping, depois de termos visto um filme, quando ele me bateu, fisicamente, pela primeira vez. Não foi um soco, nem um murro. Não sangrei nem quebrei um osso. Mas o tapa que ele me deu na bochecha esquerda repercutiu em quem sou hoje, e a decisão que já vinha pensando em tomar finalmente foi concretizada. Minha personalidade atual se deve, em grande parte, a esse episódio; percebi que não podia mais tolerar isso. Percebi que estava na hora de me libertar. Terminei o relacionamento abusivo e opressor que estava sofrendo por um ano e quatro meses. Havia assinado minha própria carta de alforria.

Nenhum homem faria isso comigo novamente. Não deixaria passar uma ofensa, subida de voz ou um beliscão sequer. Não deixaria nada nem ninguém fazer com que eu me sentisse um lixo, culpada por algo em que nunca tive culpa. Me senti aliviada, pude sorrir depois de um longo tempo sem saber o que era isso, me senti mais leve e, finalmente, bem. Mas isso não significa que tudo passou, pelo menos não exatamente. Os traumas que tive por causa de um relacionamento terrível como esse repercutem até hoje. Por vezes, tenho crises emocionais, baixo autoestima, tudo isso por causa de uma pessoa que tinha como a perfeita pra minha vida. E é difícil tirar isso da cabeça toda vez que lembro dos abusos e das ofensas que sofri.

Ele não é o único a cometer tais atrocidades. Nossa sociedade é machista, misognista, preconceituosa e opressora, e isso se manifesta em várias esferas do nosso cotidiano, desde assobios nas ruas quando trafegamos pelas calçadas, assédios em empresas e no trabalho, até a casos mais violentos, como estupros e feminicídios.

Eu não sou a única a sofrer tais atrocidades. Sei que, infelizmente, existem vários casos como o meu, espalhados por aí, ou até mesmo próximos de nós, mas não percebemos ou não nos damos conta. Se você, que estiver me lendo, está passando por isso:

NÃO DEIXE QUE FAÇAM ISSO COM VOCÊ! Não deixe, em nenhum instante, que te levantem o dedo! Você não merece estar em relacionamentos que te deixam pra baixo, te agridem ou machucam! Saia enquanto há chance, porque se isso acontece contigo, acredite, não é amor, é possessão! Ame, antes de tudo, a si! Sei que você só merece o melhor. Acredite nisso.

Caso você, que estiver me lendo, não esteja passando por isso, mas tem pessoas próximas que estão passando, lembre-se que não existe essa de que “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Ajude essa pessoa a sair de um relacionamento abusivo e opressor, tente abrir os olhos dela se ela estiver, assim como eu estive, cega por amor! Não podemos permitir que esses casos continuem acontecendo…

Não podemos permitir que lixos como esses fiquem fora das lixeiras.

Texto escrito por Miguel Araujo

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