Quem ser(ia)?

Eu queria ser uma boneca.

Muda, imóvel e graciosa.

Contudo, nem a boneca com sua bela paralisia seria capaz de permanecer intacta diante das destrutivas palavras que jorram de seus lábios.

Logo, pensei em ser gato.

Misterioso, independente e ágil.

Entretanto, nem o gato com sua enigmática agilidade seria capaz de desviar das flechas e pedras que tu tanto insiste em jogar em mim.

Pensei, pensei, e decidi ser uma planta.

Iluminada, cheia de vida e de perfume.

Todavia, percebi-me na inexistência de todas essas qualidades. Não era uma simples inexistência de algo que outrora poderia faltar, mas sim uma de nunca ter existido tal característica.

Refleti incansavelmente, até chegar a conclusão mais óbvia.

Vazia, inútil e amarga é ser algo? Do que vale ser algo se não posso ser o que eu quero? Não quero ser assim, apesar de viver na constante luta de ser esse ser estranho e tão desprezível.

Então preferi não ser.

Não existir.

Não viver.

Não sofrer.

E assim, vivo sendo nada. Apenas um saco vazio cheio de vento.

O vento é rápido, imperdoável e extenso.

Tê-lo dentro de mim me consola e deixa um rastro de vida úmido em meus olhos.

Como é doloroso se sentir viva.

Escrito por Camila Rodrigues

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