Como um estalo

Como um estalo

Senta na sua cadeira de plástico, passa as mãos na cabeça e suspira lentamente. Olha para os lados, observa as fotos postas na sua parede e escuta o som do silêncio. Pensa em voz alta, embora ninguém escute, encara a tela do computador e eleva a xícara de café até sua boca. Se prepara para beber, mas não consegue. Sua mão começa a tremular… e de seus olhos lágrimas começam a vazar.

*Estalo*

Conversava alegremente com seus amigos. O sorriso estava estampado em seu rosto, seu corpo manifestava inconscientemente gestos de satisfação e de felicidade, pois se encontrava em um ambiente e em um tempo agradáveis. O papo era diverso, sobre músicas, jogos, vitórias, relacionamentos… plurais que se tornavam singulares a cada um deles. “Vamos pro cinema qualquer dia desses? Nada pra fazer…”; todos concordavam e já planejavam como seria a reunião. Sem culpas, receios, possíveis arrependimentos. Tudo estava permitido.

*Estalo*

O ano estava terminando, e com o próximo vinha o sentimento de que seria preciso ser responsável e ter maturidade, pois não ia ser um ano qualquer. Seria, literalmente, um ano ímpar, sim, mas metaforicamente também. Com os pés fincados numa areia fria, observava, com sua taça de champanhe, os fogos de artifício explodirem no céu e iluminarem ainda mais aquela noite. Brindou ao vento aquele momento, e desejou um ano tão iluminado quanto.

*Estalo*

Encarava o caderno na papelaria quando pegaram em seu braço: “Caraca, que bom te ver aqui! Como cê tá?” Bem, obrigado, apenas um pouco ansioso pra começar, ainda não consegui assimilar essa nova realidade. “Ahh, entendo. Mas relaxa, vai dar tudo certo, cê vai ver. Tenho que ir, adorei ter te encontrado, até segunda!” E acenou em despedida… Vários pensamentos preencheram sua cabeça naquele momento, e então…

*Estalo*

Os abraçou quando os avistou na sala de aula. Muitas novidades a serem contadas, piadas nunca antes(mas sempre) ditas, desabafos e a saudade que existia pelo tempo que passaram distantes uns dos outros. Tapinhas nos ombros, “Um bom dia a todos” e, enfim, sentados novamente em suas carteiras depois de alguns meses. Boas-vindas, avisos, esclarecimentos…180 questões e redação pra eles. “Desdobrem-se, virem-se, concentrem-se, arranjem algum tempo…” Era o primeiro mês de aula.

*Estalo*

“No começo é assim mesmo, você ainda está se adaptando. O que não pode acontecer é perder o ritmo e o foco, porque senão acaba virando uma bola de neve e depois fica difícil de recuperar”. Ele internaliza isso diariamente, não pode fraquejar, é preciso ter sangue no olho… no fim vai valer a pena. Agradecerá por passar por isso…

*Estalo*

“Por que eu tenho que passar por isso? Seria tão mais fácil se… não, tem que ser fácil de alguma forma.” E continua a anotar o que vê na lousa, tentando devorar as informações que os professores passavam, porque se não pegasse tudo não conseguiria os três pontos ao final da temporada. Os dias se arrastam, “faltam 70 semanas”, ele se aflige…

*Estalo*

“E os estudos, meu querido, como estão?” Tia, pergunte das namoradinhas que é melhor… Não aguenta essa pressão sofrida, mas o que mais dificulta é a interna. A síndrome do impostor ataca diariamente, acha que não é capaz de alcançar o sucesso e que tudo que conquistou foi por sorte, estava com medo que descobrissem disso. E a bola de neve aumentando…

*Estalo*

Rodas de conversa, debates, questionamentos… “A essa altura e não escolheu sua profissão? Sei não viu…” Naquele momento, ele também não sabia, e isso não ajudava na escolha. Aliás, só o fazia se sentir mal e frustrado por não ter decidido como os outros haviam decidido. Ah, Deus, como dói isso tudo… parece que nunca vai acabar e…

*Estalo*

Achava conforto que não imaginava ser capaz de encontrar quando estava com seus amigos. Brincadeiras que amenizavam, o sentimento de pertencer a algo forte e bonito o ajudava a não perecer. Percebia a importância da vivência em grupo. “A tempestade vai passar por nós mas vamos superar isso tudo. Juntos.”

*Estalo*

Os dias passavam e ele melhorava gradativamente. Passou a ter mais confiança em si e a ficar mais tranquilo, na medida do possível. Sentia falta dos bons e velhos tempos, quando sua mãe cantava para fazê-lo dormir, mas percebe que agora está estressado diariamente. Lembrava que a data se aproximava e voltava a se sentir inseguro…

*Estalo*

Pensa em voz alta, embora ninguém escute, encara a tela do computador e eleva a xícara de café até sua boca. Se prepara para beber, mas não consegue. Sua mão começa a tremular… e de seus olhos lágrimas começam a vazar. Recebe uma mensagem no celular: “Ei, só queria te lembrar de que você é extremamente capaz e que vai dar tudo certo! Se precisar, estarei aqui, tá?” Enxuga as lágrimas e sorri, com o os lábios e com o coração.

*Estalo*

A data se aproxima cada vez mais. Mas ele já está se sentindo melhor, pois sabe que tem dado o seu melhor e que tudo pode acontecer na hora da prova, especialmente em seu favor. Lembra que conheceu pessoas e fortaleceu vínculos extremamente importantes que o ajudaram a superar as dificuldades. Agradece por ter pessoas especiais ao seu lado e por ter amizades verdadeiras. Mesmo com tantas preocupações, ele estava de pé, e não era por causa de muletas.

*Estalo*

Dois dias para a prova do ENEM. Ele, que não gostava de falar sobre isso, agora aceita o término de sua jornada. Olha pra trás e vê o quanto amadureceu e progrediu durante 9 meses, e por quantos demônios conseguiu passar nesse período. Vê que se esforçou o máximo possível, e estava bem consigo mesmo. Uma nota não o definiria, pois sabia que era maior que tudo isso. Maior que todos os obstáculos, as dificuldades, imperfeições ou defeitos que podiam aparecer. Decidiu aproveitar os momentos ao máximo, ser feliz acima de qualquer prova ou qualquer nota. Viu que a vida era o maior bem que as pessoas tinham, e que ela era curta… como um estalo.

Texto escrito por Miguel Araujo

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